sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Franciscanos


Dizem por aí que somos os novos franciscanos. Seria fascinante, mas não acho que seja o caso. Não o meu pelo menos. Não sinto a nobreza do espírito franciscano em mim, vejo a terra apodrecer pela luxuria de muitos, uma fúria me consome. Se Deus existe ele definitivamente tem senso de humor. Nossa espécie no auge de sua razão e consciência é uma das maiores catástrofes da terra. É preciso fazer algo e muitos que fazem se perdem na arrogância intelectuóide e status da academia.

Conheço muita gente que só quer tocar sua vida de uma forma convencional. Arrumar um emprego estável, ganhar uma boa grana, ter filhos. Respeito isso. O que não entendo é porque é tão difícil para tanta gente aceitar o que faço. Não quero ser funcionário público. Não preciso ganhar 10 mil reais por mês. E não pretendo constituir família tão cedo. Ainda há muito que fazer. Ralo pra cacete como muita gente, depois de um dia cansativo só quero chegar em casa e relaxar. Deparo-me com o presidente do meu país desrespeitando minha profissão em rede nacional. Há muita coisa errada, falta educação até para nossos governantes. As pessoas nem se dão conta do quão fodidas estão.

Por sorte encontramos pessoas interessantes no caminho, que tem fé. É reconfortante ver que ainda há românticos em minha profissão, esses são aqueles que nos dão força para tocar em frente. Para minha infelicidade não sou como esses gigantes filhos de Gaia que levantam-se mais fortes ao cair. Ao ver tantos erros às vezes me parece mais adequado sentar tranquilamente em um beco escuro numa noite fria e molhada de novembro enquanto nosso tempo acaba. Afinal o que um unico individuo poderia ter feito contra os senhores da soja, das grandes empreiteiras, governantes estúpidos. Uma cerveja, a idéia de como as coisas poderiam ser é o que me resta. Um dia não mais existiremos, pelo visto levaremos metade do planeta com agente. Esse será nosso legado...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Homenagem a Sivirinin


Puta gato chato, ranzinza, reclamão... Não gostava de colo nem de carinho, ele queria que a humanidade lhe deixasse em paz! Além do gênio difícil ele tinha a saúde frágil, vivia doente! Tinha um problema de pele que de tempos em tempos danava a coçar chegando a ficar na carne viva (deviam ser os nervos). Tinha os rins fracos e, no fim, a medula parou de trabalhar. Gato complicado aquele!

O diabo do gato batalhou desde o nascimento, tendo de lutar para sair do ventre de sua mãe. Nasceu cheio de problemas de saúde, foi para o veterinário numa caixinha de sapato. Logo depois seu pai morreu, sobrando ele e sua mãe.

Mas deu sorte (talvez ele não concordasse, mas garanto que sim), sua dona o amava e fazia de tudo para que ele se sentisse confortável e feliz! Batalhou até o último momento pela sua saúde. Mas a história de Sivirinin não deve ser lembrada por essas coisas, a história dele deve ser lembrada por ser uma história de amor!

Apesar do gato nutrir um desprezo enorme pelos humanos (há não ser pela sua dona, que ele tolerava e em raros momentos chegava até a pedir carinho) ele amava desesperadamente sua mãe, a gata Miella. Miella é o oposto do filho, carinhosa com qualquer pessoa que se aproxime, saudável e forte como um touro! Miella sobe em lugares que muitos gatos nem pensam em tentar, adora um carinho na barriga e ronrona forte como um trator.

Sivi amava Miella. E provou esse amor em inúmeras situações. Se você pegasse a Miella para dar banho ou qualquer coisa que desagradasse a gata, assim que ela miava ele aparecia aos seus pés e miava bravo, querendo que parassem de atormentá-la. Se fosse o contrário, Miella se escondia para evitar passar pelo mesmo que seu filho.

Mas não é só isso. O gato só ronronava para ela, todos os dias de manhã ele ia mamar (sim, com 10 anos o gato ainda mamava) e ronronava!

Algumas vezes os dois se desentenderam. E em algumas situações brigaram feio e sempre quem saia machucado era o Sivirinin, já tivemos de sair correndo com ele para o veterinário por conta de um machucado feio que a Miella causou a ele. Mais de uma vez, voltando do trabalho, encontramos o apartamento todo ensanguentado, parecendo um filme de terror, por causa dos machucados que o pobre gato sofria durante essas brigas. Mas o surpreendente dessas brigas é que, mesmo sempre levando a pior, Sivirinin é quem procurava sua mãe para dormir com ela, ficar com ela, enfim, fazer as pazes e Miella nem queria saber (Miella é uma gata rancorosa).

Sivi aguentou bravamente seus problemas de saúde por 10 anos, ele só parou de lutar quando finalmente apareceu outro gato para fazer companhia à sua mãe, o J Aparecido. J apareceu do nada, ainda muito pequeno, achado na rua.

J ADORAVA Sivi. Já a recíproca não era bem veradeira, Sivirinin suportava J, chegava até a brincar com o caçulinha da família e esperou mais um ano para ter certeza que aquele gato vira-lata iria cuidar bem de sua mãe. Quando J completou um ano, já estava mais calmo e nutri um respeito enorme por Miella.

Dessa forma Sivi decide partir, parar de lutar. Sivi quis finalmente descansar...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Uma Manhã Fria


Era uma manhã fria, quase tão fria quanto sua decisão. O tempo estava fechado. Não chovia, tanto ele quanto o tempo já haviam chovido demais por aquelas bandas, agora ia chover em outro lugar. Ele chega na rodoviária carregando uma mochila e um case onde está a sua viola. Um olhar perdido, porém determinado passeia pelos inúmeros nomes de cidades. Não decidindo para onde ir, ele resolve tentar a sorte. Aproxima-se de um guichê e fala com uma senhora de meia idade:

— Qual é o próximo a partir?

— Para qual cidade senhor?

— Qualquer uma, precisa ser o próximo a sair.

— bem, tem um ônibus que sairia agora para Uberlândia, mas vai demorar uns trinta minutos por causa do alagamento que aconteceu ali na saída.

Ele aceita, compra a passagem e vai em direção à plataforma de saída do ônibus. No caminho esbarra em um senhor. O velho, que devia ter uns setenta anos, era negro, usava um chapéu típico de homem simples do interior, possuía uma longa barba branca, um velho case com um grande arranhão em sua lateral onde provavelmente carregava um violão e um olhar de quem já havia visto muita coisa na vida. Ao se esbarrarem o velho deixa cair algumas letras de música. Ele consegue ver algumas letras e uma em um papel amarelado lhe chama a atenção, ele consegue apenas ver o titulo: “Manhã Fria”. Quando volta o seu olhar para o velho percebe que o senhor estava a olhá-lo com certa curiosidade.

— Um café pela letra da música que está vendo no chão.

Surpreso pela proposta e envergonhado por ser a causa do acidente começa a recolher as folhas caídas no chão e demora a responder.

— Não me importo com a negativa, mas gostaria muito de uma resposta, o tempo é curto e a estrada é cumprida.

— Me desculpe senhor, estou meio aério esta manhã. Claro que aceito a proposta, tenho que esperar ainda meia hora para partir, uma boa prosa será muito bem vinda.

— Que bom, pode ficar com a letra que escolher.

— Vou ficar com essa mesmo, “Manhã Fria”. Agora me deixe pagar minha parte.

— Boa escolha, eu, no seu lugar, escolheria essa também.

Os dois homens vão andando em direção ao café sujo da rodoviária, sentam-se no balcão grudento e pedem um café cada um.

— Diga, meu jovem, para onde está indo? Se não for muito abuso de intimidade da minha parte.

— Uberlândia, e o senhor?

— Ahhh, eu estou chegando, mais uma chegada antes da última partida. É bom estar em casa depois de tanto tempo. Muito mudou, mas os olhos, de vez em quando, conseguem ver o passado.

Sem compreender muito bem o que o velho dizia, respirou fundo e mergulhou em seus pensamentos. A vida que deixava para traz, aqueles lindos olhos castanhos, seu emprego. Ele sabia que não ia ser fácil, mas afinal o que tinha sido fácil em sua vida até agora? Estava abrindo mão de uma vida certa por uma incerta. Isso era assustador, mas ele tinha que admitir, a sensação era muito boa pois uma série de possibilidades se abriam diante de seus olhos. Nesse momento o homem deixa transparecer um sorriso e o velho que o observava bate em seu ombro e diz:

— É uma sensação magnífica, não é?

O jovem olha com interesse para aquele senhor com quem conversava. Ele lhe parecia familiar. Olha bem no fundo dos olhos do velho e pensa “devo estar ficando louco, preciso é de uma cachaça e de um blues, não de um café”.

Como que lendo sua mente o velho pede duas doses de cachaça e diz com um sorriso estranho para o rapaz.

— Não se assuste, um dia você vai entender muito do que vem acontecendo com você nessa cidade, inclusive esse nosso encontro. A vida é dura garoto, e deixar um amor antigo é bem difícil, mas geralmente acabamos bem.

Então o velho pega a cachaça que lhe foi servida e mata em um único gole. O mais novo repete o gesto do velho, mas acaba fazendo uma careta, pela falta de costume de beber cachaça vagabunda pura.

— Em Uberlândia as cachaças são melhores. E se você quiser beber cachaças boas, fique um tempo em Minas Gerais - e dando uma piscada para o garoto - além do mais, as mulheres mineiras são especiais.

— Não quero pensar em mulheres no momento...

— Mas isso vai mudar, esse tipo de sentimento não dura tanto, já caminhei com seus sapatos filho.

O velho levanta as mãos sinalizando para a atendente trazer mais duas doses.

— Vamos brindar. Ao mistério das mulheres, que nunca desistamos de tentar desvendar e que nunca consigamos.

— Saúde.

Ambos viram seus copos. O velho olha para o relógio e pergunta:

— Que horas é sua partida?

— Daqui a 10 minutos... Um último conselho?

— Nunca abandone duas coisas: o blues e a estrada.

O velho puxa uma carteira de cigarro do bolso de sua camisa envelhecida pelo tempo, retira um cigarro, ascende e dá uma profunda tragada soltando a fumaça pelo nariz.

— Boa sorte filho, não que você vá precisar dela.

Ao falar a fumaça sai por sua boca e narinas trazendo à memória do jovem a imagem de um preto velho. Ele paga a conta, aperta a mão do velho e caminha em direção ao local de embarque carregando sua mochila, um case e uma canção. Ao subir no ônibus esbarra na porta que causa um grande arranhão no case de seu instrumento, o motorista grita:

— Acorda garoto! Não vai querer me dar prejuizo logo no começo da viagem.

— Desculpe senhor, estava destraido.

Ao entrar no ônibus guarda seu instrumento, se acomoda, pega um papel e começa a escrever uma canção. Letra e melodia são pensadas simultaneamente, como se já estivessem lá, no fundo de sua mente. Ao terminar começa a pensar em um titulo. Olha a paisagem, sente o sossego da estrada e decide dar uma olhada na canção do velho. Pega o papel amarelado pelo tempo, começa a ler. Fica branco ao reconhecer sua letra e as palavras que acabara de escrever só que em uma folha de papel envelhecida e com o titulo: “Uma Manhã Fria”.




Texto escrito em parceria por Pronome Indefinido e João Paulo

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Herói nacional


Recebi por e-mail o trailler da sequência do filme "Tropa de Elite". E aproveito a oportunidade para colocar a minha opinião sobre o primeiro filme. Eu, diferentemente de muitos, não concordo com a idéia "os usuários é que financiam o tráfico". Na verdade, acho que a pessoa que diz uma coisa dessa só quer se abster de um problema social em que ela está diretamente envolvida, sendo um membro da sociedade. A tráfico é fruto da ilegalidade e, principalmente, dos problemas sócio-econômicos de nossa sociedade.

A criminalidade não é fruto do lucro, mas da situação palpérrima em que a maioria dos criminosos se encontra. Ou você acha que se todos os usuários de drogas ilícitas parassem de comprar drogas os traficantes iam dar os braços com os PMs e sair cantando "Nós somos jovens, jovens, jovens/ Nós somos o exército, exército do céu".

Pode esquecer, isso não acontecerá. Assim como a legalização não é, propriamente, uma solução. Da mesma forma, diante da legalidade, os traficantes do morro perdem seus "empregos", porém, continuam armados. Mais uma vez nos debatemos com um problema que perdura, pobreza gera criminalidade.

Mais uma vez não venho colocar a solução para o problema, mas debato a solução estapafúrdia que alguns insistem em defender. Para mim, essa é a solução que a classe média estava procurando para se aliviar da culpa.

São essas mesmas pessoas que costumam dizer: "bandido tem que morrer mesmo". Uma frase tão infeliz, bandido tem que ser reintegrado. É uma mentalidade muito limitada de uma sociedade que destrata a maior parte de sua população e a solução proposta é matar exatamente aqueles que são destratados. Ou seja, maltratar os destratados!

E, é por isso que Capitão Nascimento se tornou um herói. Ele comete atitudes desumanas em pessoas que não são tratadas como cidadãos. Ele é a cara do "bandido tem que morrer" ou "os usuários é que financiam o tráfico", ele é a representação daquilo que a classe média alta pensa. Ele é um herói de uma nação, um herói que representa a noções deturpadas de justiça e segurança de uma população omissa e corrupta.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Poeira da Estrada


Seu nome é Charles. Idade aproximada 26 anos, apesar do nome incomum é mais um brasileiro que caminha por esse país. O andar firme, roupas surradas pelo tempo e poeira da estrada. Foram muitas histórias, lugares, pessoas. Ele não faz parte do comum, simplesmente não concorda com o tipo de vida que tentam lhe impor. Vive como quer. Alguns caras não podem ser acorrentados, as pessoas deveriam entender isso. Trabalha duro, como a maioria das pessoas desse país. É um cara honesto, sabe tratar bem uma mulher. Em suas andanças o que mais sente falta é de uma mulher em sua vida, sentir o cheiro de uma bela mulher, esquentá-la em uma noite fria, estar lá para protegê-la. Ás vezes a estrada é solitária demais... mas o que seria de um homem sem a solidão? Viu lugares maravilhosos, teme que seus filhos só conheçam esses lugares por suas histórias. Sempre soube reconhecer os ventos da mudança, no começo de forma inconsciente. Quando o espírito se agita, as incertezas o atraem, só há uma coisa a fazer e hoje ele sabe, cair na estrada.

Descobriu que viver com pouco não é problema, dificuldades vem e vão. Não é mais um sonhador como costumava ser, isso é bom. A felicidade deve ser algo bem solido, não fruto das ilusões de ninguém. Ele não a vê como um estado permanente, mas é feita de bons momentos vividos com pessoas, lugares, histórias. Já trabalhou muito tempo de graça, viveu de sonhos, teve bons momentos, mas chega uma hora que o espírito de um homem livre cansa de sonhar e deseja viver. Cansa de ter uma formação e um subemprego, cansa de promessas. Já pensou demais, ouviu demais, sabe que é hora de fazer algo com aquilo que tem. Nesse momento da vida de Charles o que existe é um universo de possibilidades reais. Não os produtos da imaginação de um tolo. O tempo de se apaixonar por uma idéia se foi, é hora de ser prático.

A mochila está pronta. Para trás ele deixa um bom amigo, várias pessoas interessantes que conheceu. Sabe que sentirá saudades, isso é um bom presságio. A saudade o torna mais humano, lhe ensinou a valorizar pessoas e sentimentos. Partir é sempre difícil. Por mais que já tenha feito isso algumas vezes ele nunca se acostuma. Sentirá falta da vida simples que levava, das boas cervejadas, conversas... Muitos cruzaram seu caminho e deixaram uma impressão, aumentaram sua compreensão do mundo. Hoje leva sua vida com mais tranqüilidade, menos fúria. Sabe valorizar bons momentos.

Antes de deixar a cidade, entra em um bar do centro da cidade. É um final de tarde de uma quarta-feira, o movimento é fraco. No balcão está um preto velho cujos cabelos e barba grisalha parecem esconder uma verdade por Charles desconhecida, ele sorri para o velho. Todos têm sua história e às vezes os cenários apenas se cruzam como o de Charles e o do velho no balcão. Caminha até uma mesa no canto do bar, pede uma cerveja. Ainda lembra da primeira que tomou ao chegar na cidade, aqueles foram tempos difíceis e agora está a tomar a ultima. Ascende um cigarro e fica em silêncio com seus pensamentos. Ao terminar levanta-se, deixa uma grana extra no balcão e sai sem falar nada. É hora de seguir seu rumo, não há nada a ser dito, pois no final o que fica são apenas lembranças e a poeira da estrada...

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Evolução!


Incansável, o planeta gira tentando nos jogar todos para fora de sua superfície. Tudo em vão! E, da mesma forma, o homem castiga tudo que encontra na superfície daquele que não o deseja. Não tão em vão assim, pois muito morre, mas a natureza é uma força que não pára e no fim quem perecerá somos nós e não a vida.


Bilhões de anos atrás uns aminoácidos se juntaram e se tornaram vivos (?!) contrariando todas noções de probabilidade. Mais bilhões de anos e aquela célulazinha originou um número de organismos diferentes. Mais bilhões de anos e surgem os primeiros primatas. Viviam em árvores, em grupos e tudo mais. Até que um dia, um deles olhou para o chão, olhou para os seus pés e pensou “Vou pegar a estrada”. Só não saiu tocando uma gaita porque não a tinha (será que saiu assobiando?).


Foi esse indivíduo que originou o homo sapiens. Pegamos a estrada desde nossa origem. Sem asas chegamos aos cantos mais inóspitos do planeta, caminhando sempre. Fomos arrumando companhia, nos agrupando novamente, criando grupos familiares e por algum motivo em dado momento pensamos: “Pronto, cansei, chega de andar, vou ficar aqui, criar umas vaquinhas, cultivar uns cereais, casar e ter meus filhos”.


Aí um dia, um grande de um malandro (provavelmente o descendente antigo dos políticos) olhou para os pobres coitados que cultivavam e disse: “Olha só, aqui dessa forma vocês estão muito desprotegidos, me dêem uma pequena parte (até parece!) da sua produção e eu asseguro sua segurança”.


Os cultivadores se olharam e pensaram que ele poderia ter razão e era melhor garantir a segurança. Pagaram e continuaram pagando (se identifica?)... Acontece que o malandro protegia os agricultores de um a cada seis ou sete problemas e fazia daquele único caso como um ato de heroísmo e, de alguma forma, os agricultores acabavam concordando (se identifica de novo?).


No fim, um bando de malandro passou a se comunicar, comercializar, a crescer, destruir e estamos na atual circunstância. Muitos chamam o fato de progresso, ou democracia, ou qualquer merda dessas. Mas para mim é tudo uma piada. A humanidade cresce numericamente, mas a realidade da maioria é extremamente precária. Destruímos o chão que pisamos, a água que bebemos e o ar que respiramos. Destruímos não só o que está a nossa margem, mas as almas daqueles que se encontram dentro do sistema.


O contrato já não funciona (se é que já funcionou um dia) e continuamos acreditando que é o melhor que ele nos tem a oferecer. Filósofos e sociólogos insistem em nos mostrar que a nossa realidade é principalmente aquilo que a sociedade nos mostra e mesmo assim não tentamos enxergar nada além disso. Todos morrem sem entender o significado de suas próprias vidas, e aqueles que acham que entenderam se baseiam na quantidade de cifrões que se encontram nas suas recheadas contas bancárias. Já a maioria, deixa simplesmente um punhado de dívidas e sonhos não realizados.


Grande progresso! Grande merda! Grande perda de tempo! No fim a humanidade se dizimará, (e ,levando em consideração as sábias palavras de um grande amigo, a vida continuará) e nisso não resta dúvidas! Se você tem dúvidas, abra os olhos, em plenas discussões sobre meio ambiente, em pleno século XXI, estamos encarando o maior desastre ambiental! Ainda acredita no nosso futuro?


Antes eu me entristecia diante do fim eminente dos seres intelectuais que somos. O fim da escrita, da música, da filosofia, da cultura... Mas, na realidade, é o fim de muita coisa ruim, muita mesmo! Afinal de contas, na história da vida, a humanidade não passará de uma vírgula... Nem mesmo isso, porque vírgula deixará de existir, talvez antes mesmo do fim da humanidade.


É fogo

Composição: Lenine / Carlos Rennó

Éramos uma pá de apocalípticos,
De meros hippies, com um falso alarme...
Economistas, médicos, políticos
Apenas nos tratavam com escárnio.

Nossas visões se revelaram válidas,
E eles se calaram mas é tarde.
As noites tão ficando meio cálidas...
E um mato grosso em chamas longe arde

O verde em cinzas se converte logo, logo...

É fogo! é fogo!

Éramos uns poetas loucos, místicos
Éramos tudo o que não era são;
Agora são com dados estatísticos
Os cientistas que nos dão razão.

De que valeu, em suma, a suma lógica
Do máximo consumo de hoje em dia,
Duma bárbara marcha tecnológica
E da fé cega na tecnologia?

Há só um sentimento que é de dó e de
Malogro...

É fogo... é fogo...

Doce morada bela, rica e única,
Dilapidada só como se fôsseis
A mina da fortuna econômica,
A fonte eterna de energias fósseis,

O que será, com mais alguns graus celsius,
De um rio, uma baía ou um recife,
Ou um ilhéu ao léu clamando aos céus, se os
Mares subirem muito, em tenerife?

E dos sem-água, o que será de cada súplica,
De cada rogo

É fogo... é fogo...

Em tanta parte, do ártico à antártida
Deixamos nossa marca no planeta:
Aliviemos já a pior parte da
Tragédia anunciada com trombeta.

O estrago vai ser pago pela gente toda;

É foda! é fogo!...
É a vida em jogo!

Um abraço e até o fim!

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Caminhar é preciso...


Ano 2010. Hoje foi apenas mais uma tarde de calor. Ao chegar em casa cansado a noite cai pela cidade, o trafego é lento.. O vai e vem dos pedestres me deixa hipnotizado, penso nas variações de minhas emoções, minhas paixões.. Um cachorro quente me espera, que sorte meu camarada fez um panelaço, é bom poder contar com um amigo de vez em quando. Puta que pariu que fome. Enquanto como tranquilamente, ouço as notícias meio distraído. Que merda. Uma puta foi encontrada morta. Viciada. O crack não aparece nas propagandas do governo do estado. Bem vindos turistas, à terra das ilusões. O estado dos Lençóis Maranhenses, da Cultura afro-brasileira, onde suas depravações podem ser realizadas. Como se não bastasse o histórico de exploração e desprezo que essas pessoas já sofreram, os gringos e turistas vem aqui, tiram fotos dos lençóis, das lindas pretas do tambor e caem fora com seus fragmentos de realidade. Tudo o que nos deixam? Uma puta pobre, e provavelmente preta, morta pelo crack. Se bem que alguns gringos ficam, casam-se com uma pretinha e a exploram, como se o que seus antepassados já fizeram não bastasse. Bastardos. Acham que entendem esse país. Gringos... Preciso de uma cerva.

A porra da cerveja ainda está quente.

Às vezes me sento no ônibus, olho as pessoas saindo para trabalhar. Parecem tão adequados às suas vidas, indo para o trabalho com um jeito distraído. Eu cansado, minha barba e cabelos já cobrem a cara quase toda. O trabalho às vezes é cansativo mesmo, mas sempre bom. O que mata é a tempestade de desejos aqui dentro, esse eterno descontentamento, o desejo de mudança. Me sinto o Bukowski sentado sozinho e bebendo do outro lado da rua enquanto o mundo explode. Talvez já esteja nessa cidade há tempo demais e não sei o que vai acontecer.

Agora ela gelou. A cerveja é boa. Confesso que não é a melhor que já tomei. Meu corpo relaxa, estou em casa. É bom sentir-se em casa. O conceito de casa, não é um lugar físico, mas um estado de espírito que te pega desprevenido no meio do furacão em uma Quarta à noite... Preciso ver minha família, não só os de sangue. Sinto falta da companhia deles. Das conversas..

A música me transporta a lugares, lembranças. O Blues é sempre uma boa companhia. Suas variações simples e sólidas, a voz marcante, impossível uma música dessas não deixar uma impressão. Essa é a música dos homens que conhecem as profundezas da nossa natureza. Talvez por isso muitos sejam considerados malditos. Tal compreensão é demais para alguns, mas não para eles. É como se a alma de um homem pudesse ser gravada, suas mazelas, o sentimento diante do caos. Cada fibra do seu ser gravada, compartilhada. Mesmo diante do turbilhão de sentimentos, acordes firmes, calmos, ritmo sólido. É Como se sentir cada nota fosse importante, revelasse uma verdade escondida. Compreender a marcha e continuar. A estrada é longa e as respostas não estão no final esperando por nós. O que interessa é a estrada e o Blues marca o passo da caminhada.

É tarde, o sono ainda não veio. A garganta dói, deve ser uma dessas gripes aí. Passam das três e amanhã o dia começa cedo, não sei se consigo trabalhar amanhã... Essa seria a hora perfeita para um fumante ascender um cigarro, mas não é o caso. O vento manso da janela do meu quarto, a solidão da madrugada, a música da vida noturna, as luzes, os carros. Se para cada cabeça uma sentença, a minha seria Careless Love por Big Walter Horton, minha trilha sonora no momento. O que posso dizer? Sou um dramático por natureza. Um viajante que não sabe mais ficar quieto, minha alma se perdeu na estrada. Caminhar é preciso... é tarde, vou dormir.