quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Humanidade, Um Olhar Adaptativo



A história evolutiva da nossa espécie é bem peculiar, não encontramos em nosso planeta nem uma espécie próxima à nossa. O mais próximo que podemos chegar são os Chimpanzés e Bonobos, sendo que tínhamos um ancestral comum com esses animais há cerca de cinco a oito milhões de anos. Há uma hipótese que diz que nossos ancestrais não estavam sujeitos a muitas pressões seletivas do meio ambiente como predadores e variáveis ambientais, seriam “ecologicamente dominantes”, a grande pressão seletiva que nos fez chegar onde estamos hoje teria sido causada por mudanças em seu comportamento social e psique humana. De acordo com essa hipótese nós teríamos evoluído com um misto de cooperação e competição dentro de grupos de indivíduos da mesma espécie. É esperado que indivíduos dentro de um mesmo grupo cooperem, o ponto chave seria tentar fazer com que outros grupos também cooperassem com os interesses do seu grupo. É razoável pensar que um grupo com indivíduos capazes de convencer outros grupos a cooperar com seus interesses tenderiam a obter mais recursos do meio e deixar mais descendentes que herdariam essa mesma característica. O grupo com tal capacidade afetaria a sobrevivência dos outros.

O cérebro pode ser visto como uma ferramenta social. Dentro do cenário ilustrado acima, o aumento da capacidade cerebral foi uma característica selecionada pois possibilitou com que o homem lidasse com incertezas sociais. O verdadeiro desafio que nossa espécie enfrentou foi lidar com seus companheiros humanos. Deste modo podemos observar hoje em nossa espécies características interessantes que teriam surgido em nossos ancestrais, a capacidade de prever eventos e cenários é uma delas. Um exemplo bem simples: imagine que seu chefe está em uma reunião para decidir se você ganhará um aumento ou não, você logo começa a pensar: “bom, se ele me der um aumento seria massa eu terei mais grana para juntar e comprar um ap, sair da casa dos meus pais, poderia viajar todo ano sem ter maiores preocupações, vou ter grana até janeiro para mandar arrumar aquele meu carro velho que só dá prejuízo...”. Essa é uma característica interessante para um grupo que encontrará outro não muito disposto a cooperar, ele pode prever o que está por vir e ser favorecido por isso. A consciência também é algo muito interessante, ela Possibilitou que o homem se percebesse como o outro o perceberia. Deste modo ele pode mostrar para o outro o que o outro gostaria de ver, favorecendo a cooperação.

Quando trabalhamos com biologia evolutiva o que observamos é, basicamente, o que um indivíduo deseja (isso não implica que o fazem de forma consciente) é aumentar o seu fitness (o número de seus genes em uma próxima geração). De forma direta um homem pode fazer isso tendo filhos com várias mulheres. Muitos dos comportamentos que possuímos tem uma base biológica que foi moldada pela seleção natural e uma coisa é certa, não há na natureza altruísmo puro e simples. Para tornar meu ponto mais claro: as pessoas boazinhas não existem!

Agora, vamos fazer um exercício de imaginação. Imagine uma pessoa que tem uma banda de rock and roll, que escreve músicas bonitas e que falam de sentimentos nobres, é alguém que se preocupa com os outros e também com bem estar dos animais. Isso soa muito anos 70, woodstock, paz e amor, é por aí. O que você me diria dessa pessoa? Não tem como você não gostar de alguém assim não é? Claro que não, pois se trata de uma pessoa vista pela nossa sociedade como boa. Esse é um primeiro ponto, uma pessoa que é vista como boa pela sociedade tem um ganho de status. Mais mulheres podem se interessar por ele, o que pode resultar no aumento de seu fitness. Uma banda de rock é uma boa forma de mostrar tais atributos para um grande grupo de pessoas, acredito que uma banda de rock seja uma boa estratégia de aumento de fitness para todos os que fazem parte dela. Pense em bandas de rock que fizeram muito sucesso, os caras tinha dinheiro, fama e muitas mulheres a sua volta. Um exemplo clássico: Gene Simmons (baixista di KISS), dizem que ele foi um dos homens que mais fez sexo com mulheres diferentes na história. Mesmo que ele não seja o “campeão” o fato é que tocando em uma banda de rock de sucesso ele conseguiu aumentar seu fitness. É importante lembrar que a base biológica do comportamento existe, mesmo que de fato o fitness dele não tenha aumentado, já que não necessariamente as mulheres tiveram filhos dele.

O comportamento pode refletir características adaptativas, em nossas vidas com freqüência fazemos análises de custo e beneficio das situações; mesmo que seja algo inconsciente. É comum que pessoas ou amizades sejam despensadas quando os custos de se estar com alguém ou ser amigo de alguém são maiores que seus benefícios. Os animais foram moldados pela evolução para confiar em suas percepções sensoriais, mas nossa história evolutiva permitiu que conseguíssemos enganar as percepções alheias; acredioto que em algumas circunstâncias até mesmo as nossas. Confesso que meu problema não é com a nossa história evolutiva e sim com as certezas de alguns homens que confiam exageradamente em suas percepções, e o quão hipócritas e egoístas eles podem ser e ainda capazes de se mostrar para o mundo como pessoas “boas”. Somos animais morais, mas não naturalmente morais, por isso devemos analisar as nossas percepções de forma crítica antes de concluir algo, pois talvez nossa percepção não seja tão verdadeira quanto pensamos.
“The firs step to being moral is to realize how thoroughly we aren’t”.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

São Francisco de Assis


Não me importa o que você vá dizer do que a religião católica é capaz de fazer, muito menos do que pessoas são capazes de fazer em nome de um Deus ou até mesmo em nome de santos. Sei que nós humanos destruímos idéias boas em nome de uma instituição, mas não é por isso que vou deixar de admirar um cara, mesmo que ele seja somente uma história cheia de exageros e mitos, afinal de contas, às vezes é bom acreditar naquilo que é mentira, a mentira pode nos tornar mais humanos. Mas não vou discutir o papel da religião, ou de Deus, ou da igreja, nem mesmo quero divagar sobre a fragilidade das religiões perante uma humanidade fraca. O que eu quero realmente é escrever sobre a importância de um tipo de homem, na verdade, sobre dois tipos de homens, e um desses tipos está muito bem representado por São Francisco, cujo dia é o 4º desse mês. Esse santo que veio ensinar muita coisa sobre humildade, caridade, um homem com uma ligação com a natureza fortíssima, mas não é sobre essas coisas que venho aqui escrever. São Francisco, para mim, tem uma lição por trás de todas essas, e é sobre a importância do subversivo, é o novo, é o diferente, é o outro caminho.
Por que?
Ele largou tudo e peitou o papa, chamou o santo padre para o pau! Mostrou para o papa que ele era somente humano, e que poderia estar enganado em muitas de suas idéias. Falou para o maior posto da igreja católica que ele estava equivocado, porque Deus havia dito algo diferente para ele. Louco! Talvez, mas quem me conhece sabe que gosto da idéia de que a loucura tem um pingo de sabedoria.
Não que Francisco tenha sido o primeiro a bater de frente com um papa, afinal de contas São Paulo fez o mesmo com São Pedro. Em algumas cartas de Paulo eu percebi um atrito sério entre eles e os outros apóstolos (e cá entre nós, os apóstolos eram meio burrinhos porque não entenderam nada que Cristo ensinara).
E esses dois santos representam os dois tipos de pessoas importantes: os conservadores e os subversivos.
Mesmo tendo uma tendência a gostar mais dos subversivos do que dos conservadores, de vez em quando é necessário abaixar a cabeça para o antigo, o novo nem sempre está certo. É o mesmo que o careta e o porra-louca, o mundo estaria perdido se existisse somente um deles. Um cria regras e o outro as derruba, algumas se mantem, outras são criadas no lugar das que cairam, e assim a humanidade cresce.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Encruzilhadas


Na vida, com certa freqüência, passamos por encruzilhadas onde podemos ver alguns caminhos a serem seguidos. O mais interessante é que sempre há aquele caminho mais seguro que o senso comum diz ser o mais sensato, o qual traz uma boa quantidade de dinheiro em um curto espaço de tempo. Existem aqueles que se enquadram perfeitamente a esse tipo de rumo que a vida vai levar, mas e aqueles que não se encaixam? Para esses a estabilidade não é o mais importante, não é uma questão de valores, mas o caminho mais seguro simplesmente não é o mais atraente. A vontade de tomar um rumo diferente é mais forte mesmo que seja mais longo e com pouco retorno. O tipo de vida é o que mais atrai, os riscos, os tipos de conquistas que podem ser feitas, o sucesso como homem que passa por esse mundo e deixa a sua marca mesmo que sendo insignificante em uma escala geológica de tempo ou aos olhos dos homens limitados, mas que faça a diferença para outros seres vivos ou até mesmo para algumas pessoas.


A idéia não é ser alguém virtuoso que abre mão de uma serie de coisas por um ideal, isso é bobagem. A resposta está no simples fato de se sentir bem fazendo algo, completamente em paz. É como aquela sensação que temos quando estamos diante do mar em uma agradável manhã ensolarada, então fechamos os olhos para sentir o vento batendo em nosso rosto e farejar a maresia. Neste momento de tranqüilidade, surge um pensamento: Eu estou exatamente onde eu deveria estar.

"There's a feeling I get when I look to the west
And my spirit is crying for leaving..."
Jimmy Page / Robert Plant

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Lado Bicho


Embora muitos prefiram ignorar, há uma base biológica para o comportamento humano. Ao longo da história evolutiva do homem nossos ancestrais foram expostos a situações adversas, mas foram capazes de deixar descendentes. A nossa história nesse planeta tem suas peculiaridades, mas também apresenta semelhanças com a de muitas outras. O fato é que existe um animal dentro de nós que muitas vezes faz aflorar comportamentos não muito louváveis. Meu objetivo não é justificar a falta de caráter, trapaça e falta de moral dizendo que seriam características adaptativas. Por exemplo: um humano que mente e engana tenderia a deixar mais descendentes férteis do que um que não faça o mesmo. Apesar de fazer certo sentido, é importante lembrar que somos criaturas que tem uma fascinante e complexa habilidade de aprender. Não podemos ser deterministas dizendo que nossa base genética determina o nosso comportamento, mas é inegável que existe uma forte influência. Pare e pense, indivíduos da mesma espécie tendem a competir por recursos como alimento, abrigo, defender território. Alguma vez você já parou para pensar no por que de alguns comportamentos que temos? Por exemplo: se você estivesse com fome, e há apenas dois pedaços de pizza sobre a mesa da cozinha de sua casa. Você sabe que sua irmã e o namorado também vão chegar famintos, o que você faria? Garanto que a maioria comeria os pedaços, no máximo deixaria um para a sua irmã. Esse seria o animal egoísta que existe em todos nós, é preciso garantir a sua sobrevivência em primeiro lugar. Caso tivesse existido um indivíduo muito altruísta no passado que se sacrificaria pelos outros, principalmente aqueles que não são seus parentes, seria esperado que este indivíduo se reproduzisse menos, deixaria menos descendentes férteis e esse traço altruísta da personalidade tenderia a desaparecer. A questão do altruísmo é um pouco mais complicada, na natureza observamos que certos sacrifícios são feitos por parentes e muitas vezes têm uma relação com o grau de parentesco (ou grau de patrimônio genético que dois indivíduos têm em comum). Na verdade um ato altruísta entre parentes não seria tão altruísta assim, pois um irmão que deixa um pedaço de pizza para a irmã estaria protegendo parte de seu patrimônio genético que se encontra na irmã, já o namorado que se foda.

Meu objetivo não é mostrar como somos animais perversos. As pessoas são fascinantes, mas muitas vezes se esquecem do seu animal interior. Precisamos estar em contato com o nosso lado bicho para sabermos como interpretar e agir diante do que sentimos. Recentemente assisti a um filme de ficção muito bom, chamava-se “A Bussola de Ouro”. Era um mundo em que cada ser humano tinha um companheiro eterno que era um animal. O mais interessante é que cada animal, tanto aparência quanto o comportamento, teriam uma estreita relação com a personalidade de seu companheiro humano. Nesse mundo os homens podiam ver seu lado animal, conversar e chegar a conclusões juntos. O que desejo para os que lerem esse texto é que encontrem seu lado bicho e possam aprender alguma coisa com ele, além de respeitar o animal que existe nas outras pessoas.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Aos politicamente corretos


Desculpem-me os politicamente corretos, mas gostaria que todos vocês fossem tomar no meio do cú de vocês. Em um fim de semana que passou estava eu em Cavalcante com um amigo sentado a mesa de um bar depois de uma semana inteira de ralação para fazer acontecer um curso. Foi foda, deu um trabalho do cão e estávamos em nosso momento de descontração. Falávamos um monte de besteira e surgiu um relato a respeito de um figura que em um encontro estudantil ficou pelado e deixou que enfiassem pasta de dente em seu rabo e mostrassem para todos. Eu não tenho nada haver com a vida de ninguém, mas uma pessoa faz um relato desse na minha frente na mesa de um bar e quer que eu não caia matando? Aí já é pedir demais. Sacaneamos esse povo “excêntrico” até a exaustão. Não era nada pessoal, afinal não conhecíamos o sujeito, mas falar besteira pode ser bem divertido quando se está em boa companhia.



Confesso que estávamos inspirados nessa noite e começamos a falar de música. A música do bar era excepcional, ouvimos CCR, Raul Seixas, Zé Ramalho, Almir Sater, Zé Geraldo e quando começou a tocar uma música dos Beatles começamos a tirar um sarro deles também, afinal esse é um dos motivos da existência de uma mesa de bar. Eu comecei: “Para mim o John Lennon e o Paul Mccartney eram umas bichinhas arrogantes...” e por aí eu fui. Vamos combinar, eles fizeram músicas maravilhosas mas eram dois chatos de galocha. Também falei bem do George Harrison, o Beatle mais legal. No momento em que abordávamos esse assunto reparei que uma das meninas saiu incomodada com o papo, na hora nem liguei porque estávamos em um momento de descontração, depois percebi que ela ficou indignada porque estávamos dizendo coisas que “não deveriam ser ditas” ela se incomodou porque estávamos chamando um monte de gente de bicha e de seu ponto de vista estávamos sendo homofóbicos. Eu não acreditei, a guria nos julgou só porque usamos uma palavra que ela não gostou e estávamos tirando o maior sarro de tudo e todos. Sentir-se incomodada pelas besteiras que falávamos tudo bem, mas nos julgar por isso?



É por isso que os politicamente corretos me irritam, são muito apressados em seus julgamentos, se acham melhores que os que não compartilham de sua opinião e enxergam as pessoas como uma coleção de clichês. A pior parte é que a guria já nos conhece a um bom tempo, e mesmo assim nos julgou como qualquer idiota que acaba de conhecer alguém e tenta encaixar uma pessoa em um estereotipo. Acredito que as pessoas são complicadas demais para serem julgadas de forma leviana e sem um mínimo de cautela. Poucas coisas me deixam puto como isso. Vocês, politicamente corretos, deveriam ler mais, andar mais por esse mundo, conversar mais com as pessoas desde o mendigo da esquina que te pede dinheiro para a cachaça até a vovozinha que leva o seu poodle para passear. Se fizessem isso veriam que apesar das aparentes diferenças somos mais parecidos do que imaginamos, desta forma acredito que seriam mais cautelosos em seus julgamentos. Como vocês não conseguem pensar com clareza, aí vai um toque: vocês não são melhores!


Texto gordo


Pensei em te escrever um texto leve, mas de escritor gordo só sai texto recheado, porque coisa leve não engorda e não tem gosto.

Não escrevo coisa magra porque você tem gosto demais para ler coisa sem graça, não escrevo coisa sem graça porque quero que o texto ao ser pronunciado pela sua boca, deixe o mesmo gosto doce que tenho na minha ao te beijar.

Quero que meu texto encha seus olhos da mesma maneira que os meus crescem ao te ver. Quero que prenda sua respiração da mesma maneira que prendo a minha quando estamos juntos na cama. Quero que essas palavras te façam perder as suas, da mesma maneira que não pronuncio as minhas na sua frente. Quero palavras gordas para você sentir todos os pesos que sinto em nós.

Mas não quero lágrimas, mas se elas rolarem as roubo de ti para fazer uma piscina de águas salgadas para brincarmos brincadeiras de amantes, para brincarmos de Niterói porque por enquanto Niterói nos falta.

E no fim do meu texto, não deixo nenhuma sobremesa, porque não sei se consigo escrever melhor que faço brigadeiros, então, se você ler e sentir falta da conclusão, vem e me fala: quero um brigadeiro.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Sonho Lúcido


Há muito venho tentando alcançá-lo, perante a injustiça de que muitos conseguem tal experiência com facilidade e até com certa freqüência. Li sobre o assunto, descobri um psicólogo que treinou sua mente a alcançar tal estado de consciência em seu inconsciente chegando a ter vários sonhos lúcidos por noite. Treinei-me, havia conseguido apenas uma vez um estado de semilucidez, porque após alguns segundos perdi completamente a lucidez. Experiência que para mim não contou, quero horas de sonho lúcido.

Até que essa noite, no meio de um pesadelo sem pé nem cabeça, eu parei no momento em que estava para ser capturado pelos meus medos e pensei "Isso é um sonho!". Acabei com quem me perseguia num único segundo, depois comecei a pensar com o que gostaria de sonhar. Escolhi passar uma manhã com a infância de minha mãe, viajei no tempo, cheguei na casa dos meus avós e me apresentei como um parente distante, claro que meus avós acreditaram, eu quis que eles acreditassem. Passei uma manhã inteira brincando com minha mãe ainda criança, ela me chamava de tio e tinha plena confiança em mim, pulamos amarelinha, pulamos corda, brincamos com um de seus gatos... Uma manhã maravilhosa, terminamos almoçando juntos, um arroz com feijão divino, e um bife de fígado acebolado, que ela no início não queria comer, mas com muita insistência minha comeu as colheradas que eu levava à sua boca. Nos despedimos afetuosamente com um abraço e um beijo e prometi que voltaríamos a nos ver.

De tarde resolvi visitar meu pai, mas não queria encontrá-lo na sua infância, resolvi encontrá-lo com a mesma idade que eu tenho hoje, 23. Cheguei à sua faculdade, me apresentei como um parente de sua namorada (minha mãe) e o chamei para ir a um boteco ali perto. Fomos e conversamos uma conversa animada, éramos dois jovens com muita vida pela frente, os dois com muitas incertezas, porém com muita coragem. Foi bom ver meu pai dessa forma, um rapaz disposto a aprender a viver a sua vida do jeito que lhe convir, com muito a aprender. Conversamos sobre os nossos futuros e foi ainda melhor conversar com o meu pai sobre o futuro sem que ele o tivesse vencido, foi maravilhoso poder falar de meus planos sem ter a voz da experiência para julgá-los. Terminamos a tarde tomando uma cachacinha de saidera, nos abraçamos e combinamos mais uma tarde daquela.

De noite resolvi visitar minha irmã, mas queria seguir o padrão de ver meus familiares numa época em que eu não os conhecia, e minha irmã eu a conheci durante toda a sua vida, exceto no futuro, então foi para lá que eu fui, cheguei à sua casa e ela me reconheceu como seu irmão, não estranhou que eu estivesse anos mais novo, simplesmente sentou comigo para conversarmos. Ela pegou um livro seu que havia sido publicado, era um livro de fotos artísticas que retratavam o cotidiano das pessoas comuns, eram fotografias lindas, tocantes. Depois fomos jantar, a conversa foi animada e íntima, ela me tratou com o carinho de que os irmãos compartilham com a diferença que agora ela era a mais velha. Não perguntei sobre seu marido (se é que ela tinha), nem sobre seus filhos (idem) e nem sobre seu emprego, a única pergunta ocorreu no final da noite, quando ela estava tomando um café e eu um licor delicioso que ela tinha feito, peguei sua mão esquerda com minhas duas mãos e perguntei:
-Luísa, você é feliz?
Ela abarcou minhas mãos com sua mão direita, sorriu um sorriso sincero e disse:
-Sim, muito.
Nos despedimos e eu saí pela porta dos sonhos e entrei no mundo real.