sábado, 9 de maio de 2009

Vão se fuder!


Sabe, há muito tenho tido problemas para escrever... Muito pouco ou nada saem dessa minha cabeça quando sento minha bunda na frente de um computador. E há muito tempo venho acumulando idéias de textos que no fim, acredito que não conseguirei escrevê-los todos. Mas esse eu vou começar hoje. Digo que vou começar hoje porque a minha idéia é dividi-lo em três partes.

Eu já tinha pensado no título, que era: “Impunidade: a sepultura do Brasil”, mas esse novo título me pareceu muito mais apropriado para o que eu sinto, me pareceu muito mais sincero e direto. Se você se identificar com qualquer um dos grupos que eu escrever aqui, vai se fuder! Você não merece minha educação, muito menos meus eufemismos, você merece uma morte muito dolorida!

Então vamos lá, de volta aos teclados e com fúria na mente e nos dedos escrevo a vocês mais uma vez. Uma das maiores discussões de bar é a seguinte: Qual é o problema do Brasil? O que fazer para resolvê-lo? Muito provavelmente eu não tenho a resposta para a segunda pergunta, mas para a primeira eu tenho. O grande problema é a impunidade.

Tá, é bem óbvio e não caracteriza uma grande descoberta da minha parte, mas aqui vou explorar onde a impunidade está destruindo o Brasil. Eu tinha uma ordem pré-estabelecida para esses grupos de pessoas, mas vou mudar também.

Moro em Brasília, e aqui (para quem não mora aqui e por algum acaso vier a ler este texto) só se pensa em concurso público, praticamente toda a população daqui só fala nisso. E acham um absurdo quando alguém não se interessa em fazer as concorridas provas para se tornar um servidor público. E por que? Alguns vão dizer que é porque Brasília não tem industria, o que não chega a ser uma mentira, mas também não constitui uma resposta, porque ainda existem empresas privadas.

Eu digo porque as pessoas se limitaram a concursos públicos: Porque todo mundo quer mamar nas tetas do governo! E pior, querem mamar nas tetas da nossa mãe gentil, Pátria amada, Brasil sem correr o risco de perderem o emprego. E é isso que caracteriza nossa podre sociedade, só se pensa em viver impune. Porque senhores, quem já viu alguém ser exonerado do serviço público? Praticamente ninguém é exonerado.

E a situação vai piorando. Todos querem passar nos concursos para tribunais ou, melhor ainda, para o senado, porque são os melhores salários e a melhor mamata! Sim, é uma mamata, se tem servidor que rale pra valer nesses órgãos é uma minoria considerada louca. Alguns podem até vir me dizer que ralam, mas não como um servidor público que recebe 10 mil reais por mês deveria ralar!

Mas a vida de um concurseiro é uma escada, quando você começa a estudar para concurso só passa nos concursos meia-boca do executivo (pagam mal, mas você pode continuar estudando, porque no trabalho você pode ficar sem fazer nada), depois de um tempo você passa num melhor, depois noutro melhor e depois noutro melhor ainda e assim vai. Esquecem que dinheiro público foi gasto para contratá-los (em todo o processo de concurso público uma nota é gasta) e treiná-los. Depois de gastarem essa verba pública vão para o próximo órgão público fazer a mesma palhaçada.

Mentira minha? Em um ano, cerca de 30% dos funcionários que passaram num concurso do executivo, que nem paga tão mal assim (R$ 3.500,00), saíram... 30% em um ano! E esse é só um exemplo!

E assim fica o poder público brasileiro, nas mãos de pessoas descompromissadas com seu emprego, querendo só ganhar mais. Se tiver um de vocês, escaladores de concursos, lendo aqui e se achando no direito de querer ganhar mais, porque é a sua vida, bem, mais uma vez, vai tomar no meio do seu cu! Faça isso de forma que meu dinheiro suado (sim, tem gente que trabalha nesse país, e melhor, nessa cidade!) não seja jogado fora!

E esses mesmos que desperdiçam uma quantidade absurda de dinheiro público ficam revoltados quando vêem uns políticos comprando passagens para seus familiares viajarem. Ah sim, e quando aquele filho duma puta que deu passagem para o filhinho dele ir para Paris (tirando uma folga dos estudos para concurso público) diz que não existem regras claras quanto às passagens, nós todos ficamos revoltados, porque é óbvio para nós que é errado gastar dinheiro público... Exceto quando somos nós que estamos gastando de forma errada, não é?

Então é assim que é a juventude brasileira, e mais especificamente a brasiliense, que não se garante, tem medo de encarar um emprego de verdade, teme ter que trabalhar de verdade. "Não quero trabalhar minha vida inteira para ser demitido quando estiver velho". Melhor é falir o governo!

Quanto aos políticos, eu falo deles na próxima parte! Porque agora estou enojado demais para continuar!

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Percepções




É interessante como somos enganados por nossa percepção. Na verdade, isso é tudo o que temos para nos orientar nesse mundo e acredito que, em certos momentos, seu valor deva ser questionado. Não me refiro ao sentido prático, mas às interpretações que fazemos dela. Ela nos engana e tenho a ligeira impressão de que evoluímos para sermos enganados, acreditando em nossas percepções, criando e vivendo ilusões. Somos muito bons nisso. Por isso me incomoda o fato de algumas pessoas terem tanta certeza de algumas coisas, certezas são perigosas e é importante questionar. Como podemos ter certeza de algo baseado em nossas percepções? Não sei se estou sendo claro... preciso usar um exemplo. A música, com toda a diversidade de estilos: música clássica, chorinho, samba, baião, blues, rock. É possível, também, observar uma grande diversidade de pessoas que apreciam determinados estilos e tem aversão a outros.

A música toca as pessoas de forma diferente, aflora sentimentos deferentes em cada ouvinte. Talvez por isso seja tão interessante ver pessoas com gostos musicais diferentes conversando sobre música, não há consenso. A percepção delas em relação à música é diferente. Então o que seria real? Qual seria a percepção correta? A de um fã de blues que sente um forte sentimento de identidade com os arranjos e letras profundas de um senhor chamado Robert Johnson, capaz de encontrar consolo na vida sofrida de outro homem. Ou seria a de Um fã de samba que encontra na música o sentimento de identidade cultural, suas raízes e história de seu povo. Qual dos dois estaria correto, supondo que um seja incapaz de compreender com profundidade o significado da música para o outro? Poderia dizer que seriam duas realidades diferentes? Ou duas ilusões diferentes? Prefiro acreditar que seriam duas ilusões diferentes, pois quando dizemos que algo é real não há abertura para reflexões, as pessoas se agarram à sua realidade, certezas e verdades.

E o amor. Esse sentimento entre homem e mulher. Quem não teve um grande amor? É ao mesmo tempo uma dádiva e uma maldição, não conseguimos ver as coisas com a mesma clareza e razão habitual. Muitos se perdem em um beijo, um cheiro, um sorriso, no sexo, em suas ilusões... essas não são palavras de um cético tentando racionalizar o amor. Os sentimentos eles são verdadeiros sim e isso é inquestionável, mas damos a eles proporções absurdas ao ponto de ficarmos perdidos em nossas verdades. Somos enganados por nossos sentidos, na verdade pelas impressões que nosso cérebro faz deles. Muitos acreditam só naquilo que podem perceber, isso é uma pena. Com toda a nossa complexidade é preciso refletir sobre o que sentimos. Isso pode nos tornar mais pacientes, tolerantes, menos agressivos e talvez traga um pouco de paz, talvez...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O sangue de Cristo tem poder


Aos religiosos que chegarem a ler isso, minhas sinceras desculpas, não é meu objetivo ofender a Cristo ou a Deus. A crítica é à humanidade.

Deus resolveu criar o mundo e seus habitantes e num lapso de arrogância, criou o homem e a mulher. E desde sua criação, o homem vem destruindo tudo que toca, como um Midas às avessas. Após destruir tudo que se encontrava no mundo profano resolveu destruir tudo que encontrava no mundo divino. E essa é a história de como a humanidade se destruiu e de como Deus se redimiu de sua arrogância.

Após o perfeito domínio da clonagem, cientistas conseguiram clonar resíduos encontrados do sangue de Cristo. A princípio o poderoso líquido só era acessível para uma pequena parcela abastada da sociedade, que gastava fortunas para curar suas mazelas, todo tipo de doença era curada com uma pequena porção do sangue divino. Após muitos anos o processo de clonagem se tornou mais barato e após fervorosas reivindicações do resto da sociedade o sangue passou a ser utilizado por todos para a cura de doenças. O efeito rejuvenescedor do sangue elevou a expectativas de vida à números somente vistos no antigo testamento. Mas os efeitos benéficos do sangue estavam para acabar.

O próximo passo dos filhos de Deus foi tentar utilizar o poderoso remédio para resolver problemas diplomáticos. Os governantes tomavam do sangue para resolver suas diferenças em reuniões elevadas a um patamar divino. Muita coisa boa era decidida nessas reuniões, mas pouco se concretizava porque o efeito divino logo se perdia na perdição humana e os governantes voltavam às suas posições iniciais.

Até que um gênio teve a idéia de que a sociedade deveria pagar para que os governantes deveriam ter o sangue ininterruptamente. Os governantes se tornaram divindades. E foi lindo, as guerras acabaram, acordos econômicos surgiram para reerguer países pobres explorados, dívidas externas foram perdoadas... E foi aqui que o sangue começou a se tornar em maldição.

Com problemas políticos e diplomáticos resolvidos a sociedade só crescia, mas a população continuava corrupta, e assim passou-se a ser traficado ilegalmente do sangue. A pessoa comum queria atingir a divindade e passou a injetar o sangue ilegal. Grupos religiosos passaram a utilizar o sangue traficado em suas cerimônias, distribuindo entre os fiéis. A mente profana da humanidade atingindo estados divinos começou a se tornar o maior vício jamais registrado. Em poucos anos o mundo inteiro estava totalmente entregue ao vício, e todos os cantos se encontrava pessoas ajoelhadas, orando, com seus braços amarrados e com seringa na mão.

Aos poucos a única coisa que se tornava indispensável para todos era a droga final, a humanidade esqueceu de trabalhar, de se socializar, de se reproduzir... O homo sapiens não possuía a maturidade espiritual de lidar com a divindade. Lentamente a humanidade foi sumindo, sem que percebesse seu fim. o mundo foi se reerguendo sem a presença do homem até que o ser humano sumiu.

E foi assim que os filhos de Deus sumiram e que Deus se redimiu de seu único erro.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Laura

Era só mais uma noite, ela estava sentada terminando mais uma dose de Whisky ao som da mesma música eletrônica de sempre. Ouvindo as mesmas cantadas e elogios daqueles homens com cabelos curtos, barba feita, perfumes caros. Eram belos, mas quase dava para sentir o cheiro do anabolizante saindo pelos poros da pele. Ela estava cansada do jogo, agora era diferente. Com a idade as mulheres de seu meio enlouqueciam, faziam cirurgia plástica, colocavam silicone, mas ela não; continuava sempre jovem e linda. Envelhecer não era mais um problema para ela, seu mundo agora tinha cores e cheiros diferentes. Passados dez anos desde que encontrara aquele homem cujos olhos pareciam arder em brasas na escuridão da boate e por quem ela tinha sentido uma atração sobrenatural, suas percepções sensoriais havia mudado e agora sua visão de mundo também estava mudando.

Após dez anos freqüentando casas noturnas, saindo com homens belos e com grana, fazendo sexo em diversos lugares, situações e posições que a criatividade humana possa imaginar; faltava alguma coisa... talvez um gesto carinhoso, um olhar de cumplicidade, mas no fundo ela sabia; em seu mundo faltava profundidade na alma das pessoas. Seus cérebros só conseguiam captar imagens que eram projetadas em suas retinas e suas avaliações eram feitas com base em padrões ditados por um mundo superficial que vende a imagem de uma juventude narcisista. No começo ela achava que o fato de não estar envelhecendo era uma dádiva, mas agora sabia que era uma maldição. Ela começava a ter reflexões que nunca tinham lhe ocorrido antes, tinha o corpo de uma menina de 21 anos e a mente de uma mulher de 31. Nunca poderia casar-se, ter filhos e envelhecer; estava presa para sempre a uma existência superficial. Sentada no bar, quando esse ultimo pensamento passou por sua cabeça abriu-se um discreto sorriso no canto de sua boca, matou em um longo gole a sua oitava dose de Whisky e disse em voz baixa “ao menos o safado tinha senso de humor”. Largou o copo no balcão e foi à caça, uma garota precisa se alimentar.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Meu Mundo


Era um mundo um pouco diferente do que conhecemos. Neste, também havia muitas formas de vida, mas a humanidade deste mundo andava lado a lado com o animal que era parte de seu espírito. Cada ser humano possuía um forte laço com o espírito de um animal que os acompanhava sempre. Era um mundo em que a solidão não existia, as pessoas nasciam e morriam junto com seus companheiros eternos. Além de companheiros, refletiam a personalidade do humano ao qual estavam ligados. Na infância os animais não tinham forma definida, podiam mudar de forma dependendo da situação. Isso se explica pelo fato das crianças não terem ainda uma personalidade bem definida. Com a maturidade os animais tomavam sua forma definitiva. As pessoas são dotadas de traços muito fortes de caráter que refletem na forma de seu companheiro animal.

Tudo o que um sentia o outro sentia, suas mentes e corpos são ligados e muitas vezes as palavras são desnecessárias; apenas um olhar basta. Os homens e seus animais nunca podem se distanciar, isso causa uma dor muito intensa e pode levá-los à morte. Era um mundo interessante pois as pessoas conheciam e podiam ver o animal que existe em cada uma delas, eles sempre estavam ali, caminhavam lado a lado. As pessoas tinham mais respeito umas pelas outras e pelas diversas formas de vida que existiam, não era preciso que existissem homens que explicassem às outras pessoas a importância de se preservar a diversidade de vida na terra; todos compreendiam. A diversidade de traços de personalidade dava forma aos animais das pessoas, mas seus companheiros eternos só poderiam assumir a forma de animais que existiam no planeta; caso uma espécie fosse extinta, com ela também desaparecia uma combinação de traços de personalidade únicos que jamais voltaria a aparecer. A única exceção em que os animais de adultos podiam mudar de forma ou assumir formas de animais que não existiam tais como dragões, fênix, grifos, cavalos alados, era quando os homens estavam sobre o efeito de alguma espécie de planta que provocava intenso relaxamento ou sob efeito do álcool. Era muito interessante observar como as pessoas e seus animais se divertiam nessas situações.

Eles e seus animais haviam crescido juntos, a forma da lebre se fixou antes. Pertenciam a povos diferentes, mas eram inseparáveis. A lebre refletia a sagacidade, inteligência e esperteza daqueles que tem raciocínio rápido e estão sempre prontos para argumentar e agir. Era mestre na arte do improviso e com tais atributos não era difícil para ele enrolar aqueles não dotados da mesma sagacidade. Um exemplo bem simples e prático que reflete a lebre que existia nele eram os jogos de baralho. Quase nunca se dava mal porque raramente encontrava um adversário que não pudesse enganar ou derrotar com uma boa estratégia, estava sempre a um passo a frente de todos. Seu amigo sabia disso e também tinha consciência que nunca era uma boa idéia dizer para ele: “duvido!” ou “vamos apostar?”, quando via alguém pronunciar tais palavras para seu amigo apenas esboçava um sorriso de canto de boca pois sabia que o cara já tinha perdido e nem sabia. Outra característica interessante era que sua companheira lebre falava mais que o normal para um animal e sempre o ajudava nas discussões ou jogatinas, era uma sinergia incrível.

O companheiro de seu amigo demorou um pouco mais para se fixar, mas acabou tomando a forma de um lobo cinzento fêmea. Ele tinha a necessidade de ver coerência e sentido naquilo que observava, as pessoas tinham que ser aquilo que elas falavam que eram. Não era dotado da sagacidade e inteligência de seu velho amigo, mas era firme e bastante consciente. O que explica a forma lupina de sua companheira. Lobos são predadores de topo de cadeia alimentar, caçam presas maiores que eles e precisam fazer isso em bandos; eles tem consciências que o bando é fundamental para a sobrevivência, não são arrogantes e sabem que devem manter-se firmes durante o inverno rigoroso que enfrentam todos os anos. Sua personalidade foi moldada desta forma e por isso não tolera os que fraquejam em momentos difíceis, se quiserem fraquejar que o façam longe dele.

Com o tempo a lebre conheceu um belo gato siamês, animal gracioso, delicado e um pouco tímido, características que compartilha com sua companheira. Era uma relação bela de se ver, uma relação de carinho e cuidado recíproco, o velho amigo e sua lebre realmente pareciam precisar de alguém com tais qualidades para olhar por eles. Seu amigo adora ver os dois juntos, apesar de sua descrição, toda vez que os encontra isso fica bem claro com o incessante balanças de rabo de sua loba.

Essas são apenas pessoas comuns desse mundo e com freqüência podemos encontrá-las sentadas em uma mesa de bar jogando conversa fora, discutindo dramas pessoais ou simplesmente tomando uma cerveja e gargalhando de seus animais assumindo formas bizarras e interessantes. Fazem parte de uma realidade em que a celebração, o respeito e o amor à vida são tudo o que há de mais sagrado.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Travessa dos poetas de calçada


Esse é um texto de um grande amigo meu, e com sua autorização posto aqui. Abração Gabiroba!


Aos poucos, o sol fica mais intenso e eles saem das sombras, das cinzas, da poeira de asfalto. Do orvalho matinal que seca no calçamento de pedra portuguesa eles brotam do concreto fértil, pelas travessas, pelas ruelas que de abandonadas, começam a engolir gentes atraídas para seus recônditos, para seus prédios. À medida que o centro enche, eles nascem, montam suas estruturas em madeirite, em pequenas telas de exposição. Iniciam longas conversas, fumam pelos cantos marcando território, observam as pessoas chegando para o trabalho. São os poetas da calçada, trazendo todo o lirismo chinês, toda sorte de pequenos badulaques, cintos, roupas, bolsas, comidas. Estendem pedaços de lona no chão de pedras brancas encardidas por borracha de sola de sapato. Os passos que vão crescendo e se tornando incessantes após a alvorada vibram em seus peitos, em seus corações, em suas vozes. Bonés, camisetas regadas, anéis de aço, bigodes em rosto de pêlo raro.

Fumando na porta do prédio vizinho ao Theatro Municipal, acompanho um rapaz desenrolando sua lona azul, tirada de dentro de uma bolsa preta entulhada de produtos chineses de baixa qualidade. Monta uma estrutura sanfonada de finos pedaços de madeira, tira umas tabuinhas, alinha as mesmas sobre a estrutura. De dentro de sua bolsa revela ao mundo o lirismo que ele trouxe para o burocrata cansado se relaxar em casa, um massageador à pilha. Observo as caixas do produto, umas fotos de pessoas em roupa de academia, aquelas de lycra colada ao corpo, de pé, fazendo poses e sorrindo com o massageador na mão, aplicando em partes variadas do corpo. Fotos ocidentais, produto made in China, seguramente. Ele sequer termina a montagem, um gordão em cavanhaque e terno-e-gravata o aborda para experimentar aquela poesia concreta, de rua. Imagino-o, gordaço, sentado no sofá, em frente à TV, numa sala imunda de algum surbúrbio, vendo rede bobo, o ventilador de teto chacoalhando lentamente, o suor escorrendo farto de suas axilas e testa, a mão brilhante com o massageador deitado sobre sua pança, vibrando suas carnes, suas gorduras.

Não há como negar. É a pura poesia de calçada. Infelizmente o gordão não faria naquela noite um ritual bizarro de onanismo corporal com aquele consolo gigante. Achou caro ou algo do tipo, deixou o poeta de calçada barganhando ao vento, gritando preços especiais enquanto o
terno mal cortado partia apertado no corpo do gordão. Mas os gritos continuam cortando a rua, no meio do barulho de sapatos, de salto-altos que mulheres parecem andar como cavalo recém-ferrado, de gentes pensando alto, conversando, absortas por algo místico do mundo. A multidão beira o infinito, incessante, perene.

Do outro lado, um rapaz termina de montar a exposição de um catálogo de DVDs. Mais da metade dele com a poética de falos gigantes em traseiros e bucetas de loirinhas que parecem ter quinze anos. Negros com pirocas de jegues, estourando as bucetinhas oxigenadas de mulheres
fazendo cara de prazer enquanto lágrimas correm por seus rostos. 'O melhor do anal', 'brasileirinhas', etc, etc. Vezenquando uns gatos pingados param numa postura pensativa como a daqueles que param na banca de jornal vizinha para ler as notícias nos jornais expostos nas laterais. Rapazes lavam o chão encardido com um limpa tudo, os círculos alvos pelo calçamento comprovando a eficácia de uma química que destrói suas mãos já há muito calejadas. Quando desço, depois das 18h, todos já se recolheram à sombras.

*A travessa dos poetas de calçada é uma fenda no meio de prédios
gigantescos na treze de maio, cinelândia.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Rafael


Rafael era seu nome; ele andava pela terra como qualquer outro mortal, mas era um anjo mandado para a terra com a missão de compreender sentimentos e percepções humanas: Amor, medo, tranqüilidade, ódio, paixão, rancor. Gabriel, arcanjo da mais alta hierarquia, acreditava que seus irmãos poderiam crescer espiritualmente e compreender melhor a fascinação de Deus pelos homens. Rafael foi voluntário e logo que chegou a terra sentiu uma dor física imensa, como a de um bebe que respira pela primeira vez, mas o anjo veio na forma de um homem adulto, estatura mediana, barba, cabelo curto e pele negra. Caiu na terra em um beco escuro; estava atordoado com a dor, assustado correu para sair do beco e foi atropelado por um carro que passava na rua. Foi levado a um hospital onde conheceu Pietra, a enfermeira que lhe deu conforto e cuidou de suas feridas. Logo de cara eles se sentiram atraídos um pelo outro, com o tempo ele a amava com toda a intensidade que um homem pode amar uma mulher; graças a ela experimentou sensações que ele nunca imaginou existir.

Rafael e Pietra ficaram juntos por três anos. Nesse intervalo de tempo ele conheceu Antônio, o homem mais descente com o qual ele teve contato. Tornaram-se amigos e com freqüência tomavam uma cerveja ao som de bandas como Lynyrd & Skynyrd, CCR, Eric Clapton, apenas com o intuito de desfrutar da companhia um do outro,trocar idéias, ouvir boa música e sentir suas percepções ligeiramente alteradas. Quando Pietra deixou Rafael ele sentiu uma dor terrível; não era algo físico, mas o desespero de saber que nunca mais poderia olhá-la nos olhos e sentir a cumplicidade que só os que se amam sentem, não poderia mais sentir o corpo dela procurando pelo dele em uma noite fria; teria que se acostumar com a ausência do cheiro dela por perto pois o amor que ela sentia havia acabado. O anjo sofreu por três longos meses, principalmente após vê-la com outro. Sentiu ira, rancor e conheceu a besta que existe dentro de todos os homens. Apesar de rejeitado e com orgulho ferido, se esforçou muito para não julgá-la mal e não o fez. Ela jamais ouviria uma palavra grosseira de sua parte, ele que controlasse seus demônios.

Alguns dias foram mais difíceis que outros e Antônio sempre esteve presente. Rafael pode compreender o que seria a amizade, seres humanos são animais sociais e precisam de companhia. No princípio o anjo acreditava que o melhor mesmo seria caminhar sozinho por esse mundo e que ele mesmo que cuidasse de suas feridas, mas Antônio lhe ensinou que as coisas não são bem assim. Sua história com Pietra e sua amizade com Antônio lhe ensinaram a ser paciente com as pessoas, a não deixar que seu amor tire sua dignidade e a enfrentar a dor de sua solidão; só agindo desta forma percebeu que sua natureza humana pode obter paz e assim cresceu emocionalmente. Sua missão estava cumprida, agora ele era capaz de compreender a fascinação de Deus pelos humanos. Apesar de todo o sofrimento que eles podem sentir eles são capazes de se recuperar.