sábado, 5 de setembro de 2009



Cássio acorda com uma gargalhada alta que ecoa do corredor para dentro de seu quarto. A cama ao seu lado está vazia.
“Julho já acordou, provavelmente está babando na fila do café”.

Olha pela janela gradeada e vê o sol brilhando num céu azul imponente, levanta e se volta mais uma vez para a janela, agora vê o pátio de entrada, a grama está verde e molhada.

“Talvez uma das maiores preocupações da administração do local, a grama verde na época da seca dá uma idéia de zelo para os nossos parentes. E não adianta tentar mudar a idéia deles, a grama verde é uma prova muito mais confiável do que as palavras de um louco”.

Cássio já estava acostumado com a rotina, mas não havia desistido de sair do sanatório. Tentava se parecer o mais normal possível, mas a doutora Carla insistia em mantê-lo lá durante meses cada vez mais cumpridos.

Um enfermeiro, magro, baixo, sempre com uma barba por fazer, entra no quarto e se dirige ao Cássio.

-Dormiu bem, Cássio?

-Sim, obrigado. – Cássio gostava do enfermeiro Lucas, era o único que nunca perdia a paciência com os pacientes, nem mesmo com os mais difíceis.

-Vamos, está na hora do desjejum e dos remédios. Julho está na fila e está insistindo para que alguém te chamasse.

Julho se afeiçoara ao seu companheiro de quarto, Cássio costumava dar atenção aos seus devaneios em conversas que costumavam durar horas. Na verdade Cássio descobrira o quão fascinantes as idéias daquele lunático podiam ser se alguém prestasse atenção nelas. A doutora Carla já o havia censurado por incentivar as “alucinações” de Julho! Cássio às vezes pensava ser esse o motivo principal para ainda estar naquele prédio para loucos.

Ele compreendia que a doutora o havia ajudado muito, a situação em que se encontrava quando entrou era dramática. Sua mulher e filhos nem vinham visitá-lo no começo, depois de um tempo sua mulher vinha sozinha e há pouco tempo trazia seus dois filhos. Era tão bom vê-los, e tão doloroso não poder voltar para casa com eles no final da visita, talvez devesse diminuir as conversas com Julho.

Cássio se encaminha para o refeitório e lá está Julho, ansioso, mudando o peso de seu grande corpo de uma perna para a outra. Julho, ao ver seu grande amigo, acena rapidamente mostrando o lugar à sua frente.

-Guardei o lugar na minha frente para você, as maçãs podem acabar! – no fim, Cássio sempre dava sua maçã a Julho, que sempre recusava de primeira, mas depois de um tempo, ao ver a maçã parada na bandeja, sempre a pegava e saía correndo para frente da TV, em outro cômodo.
-Muito obrigado Julho.
-Dormiu bem, Cá?
-Dormi sim, aqueles comprimidos que me dão antes de dormir me derrubam!
-É porque eles não querem que a gente sonhe!
-E por que eles não querem isso? – Perguntou Cássio, sendo lembrado porque era tão difícil não
conversar com aquele maranhense lunático. Cássio sabia que Julho já havia sido um homem muito bem sucedido, dono de uma empresa de softwares. Já disseram a ele que Julho fora um grande gênio, criara softwares geniais, mas que de alguma forma perdera a empresa. Foi aí que as coisas ficaram ruins. Seu nome não é Julho, mas ele insisti em ser chamado assim!
-Porque nossos sonhos nos mostram a verdade!
-Verdade sobre o que?
-Sobre tudo! Sobre a grama lá fora, sobre as maçãs, sobre a chuva ou a falta dela! Sobre nossos filhos e nossas mulheres, sobre o que é certo e sobre o que está torto. Explica o porquê da vida, do mundo, do nada, de tudo!
-Você sonha, Julho?
-Sonhava, é por isso que estou aqui, é para reconquistar meus sonhos, eu parei de ver a verdade!
-Você acha que a doutora Carla sonha?

Julho pensa por alguns segundos, depois responde:

-Ela te ajudou?
-Sim...
-Então deve sonhar.
-Mas se ela quer nos ajudar, então por que não quer que eu sonhe?
-Você não deve estar preparado para a verdade. Mas acho que se você se esforçar você vai conseguir sonhar, ou até mesmo lembrar o que você deveria ter sonhado essa noite.

Cássio começou a pensar sobre a importância dos sonhos, e que já lera que apesar de ninguém saber exatamente para que servem os sonhos, eles são muito importantes para a saúde mental. De certa forma Julho poderia ter razão. Começou a tentar lembrar do seu sonho daquela noite.

A fila começou a andar, Julho ficou entusiasmado, Cássio foi andando seguindo o ritmo da pessoa a sua frente, foi servido de um mingau fedido e fumegante e quando estava preste a pegar sua maçã a memória do seu sonho reapareceu de uma vez. Um turbilhão de imagens esmurraram seu cérebro e no fim, uma voz rouca, num grito, lhe falara:

-Ainda falta muito!

Cássio solta uma gargalhada assustadora, joga o mingau na cabeça da pessoa à sua frente, segura sua maçã com a boca e sai correndo em direção à janela gradeada. Num grito abafado pela maçã começa a esmurrar as grades.

Julho se vira para o pobre homem queimado pelo mingau e diz:

-Desculpe ele, ele não estava preparado...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Vão se fuder! Parte 2


Sinceramente, não tem época melhor para eu escrever essa segunda parte do texto do que essa em que nos encontramos. A pouca vergonha generalizada dentro daquele antro de ladrões está cada dia mais evidente. Essa segunda parte é sobre a impunidade no governo.

Há muito tempo já havia escrito algo defendendo o meu voto nulo, dizia que só votaria nulo porque não entendo, não gosto e não acompanho política. E isso não deixou de ser verdade, mas meus motivos para o voto nulo mudaram drasticamente.

Primeiro, ninguém realmente sabe em quem votar com 100% de certeza de que aquele candidato é o ideal. Se achar que tem certeza ou é desinformado, ou muito inocente, ou pior, desonesto e sabe que com aquele candidato ele vai se dar bem de alguma forma desonesta.

Segundo, estou para ver um político honesto! E quando digo honesto não quero dizer que simplesmente não roube, a honestidade é um conceito superior a isso. Uma pessoa honesta honra suas promessas, age com decência, não se deixa levar por pessoas de má índole. Uma pessoa honesta luta contra a desonestidade, antes de qualquer coisa!

Terceiro, o sistema incentiva esse bando de parasita a se tornar coisa pior! Eles legislam as próprias leis! Dessa forma eles conseguiriam enriquecer “legalmente”! E essa merda de imunidade parlamentar, que é um abuso do nosso bom senso, é um estupro da nossa paciência, porque esses canalhas praticamente não podem ser presos. Se roubou, tem que pelo menos ser preso, mas nada acontece, o cara, na melhor das hipóteses, renuncia (para nas próximas eleições poder voltar e continuar roubando).

Mas eles não param de nos surpreender! Diariamente aparecem novos absurdos! Mas ultimamente parece estar cada vez pior.

Não bastou Fernando Collor (o cara que cagou na retomado do processo democrático brasileiro) ser eleito como senador, não bastou José Sarney ser presidente do Senado, não bastou o Lula (em quem eu admito ter votado e que até bem pouco tempo atrás ainda o tinha com certa, apesar de bem menos do que já tive, consideração. E me citando “Uma pessoa honesta luta contra a desonestidade, antes de qualquer coisa”) ter se pronunciado a favor desse pilantra para ganhar maioria no Congresso, agora a gente tem que ficar vendo nos noticiários a baixaria que estava se passando dentro do senado.

Não digo baixaria pela revolta de alguns (revolta que eu particularmente não considero tanto porque eles só estão atrás dos próprios benefícios, mas que pelo menos estão brigando pelo certo), mas é uma merda esses cornos desonestos não terem a decência de se calar diante das provas de sua cada vez mais evidente podridão.

O Sarney teve a ousadia de falar que estava sendo perseguido pela mídia! Não, isso é uma ofensa à inteligência de todos nós brasileiros. Ele faz merda, nos rouba, descobrem e ele é o coitadinho por estar sendo perseguido. A mídia é a vilã nessa história (tá, ela não é santa!) por estar descobrindo os podres dele e de mais ninguém! Ahhhh Sarney, vá a merda, seu filho da puta!

A coisa é tão feia que a defesa dele é o Collor! Mas, nós brasileiros ficaríamos muito satisfeitos se fosse só essa a vergonha nisso tudo. O maior problema é que de uma hora para outra os ânimos foram se acalmando, os discursos foram ficando mais educados, chegou a ponto de quem estava brigando pelo certo pedir desculpas (?!?!?!?!) e pronto, todas as acusações estão sendo arquivadas!

A crise no senado acabou, todos no governo estão felizes e contentes e nós, brasileiros, mais uma vez nos curvamos para que eles continuem a nos fuder!

Dessa forma, o Brasil vai cada vez mais para o buraco. Nessa segunda parte do meu texto o foco é a impunidade no senado e na câmara. E o que podemos fazer? Eu não sei, votar com consciência não adianta, quem tem que ter consciência são eles e não nós! Manifestações com caras pintadas... Também não sei se funciona, eles tem tudo a favor deles, porque o Sarney ainda vai ser eleito, o Collor ainda vai ser eleito, o Lula ainda vai ser eleito e, que Deus nos ajude, Dilma será eleita...

Eu pensei numa forma de resolver o problema, alguém tinha que ter colhões e sair matando todos os políticos que roubassem. Matasse mesmo! Tiro na cabeça, facada nas costas, atropelamento, bomba, tortura, decapitação, castração... Dessa forma talvez os políticos passassem a pensar duas vezes antes de roubar, mas sabe como é, o povo também é corrupto, logo esse cara iria começar a matar quem lhe interessasse.

Comunidade Carente

Zeca Pagodinho

Eu moro numa comunidade carente
Lá ninguem liga prá gente
Nós vivemos muito mal
Mas esse ano nós estamos reunidos
Se algum candidato atrevido
For fazer promesas vai levar um pau

Vai levar um pau prá deixar de caô
E ser mais solidário
Nós somos carentes, não somos otários
Prá ouvir blá, blá, blá em cada eleição

Nós já preparamos vara de marmelo e arame farpado
cipó-camarão para dar no safado que for pedir voto na jurisdição
É que a galera já não tem mais saco prá aturar pilantra
Estamos com eles até a garganta
aguarde prá ver a nossa reação

sexta-feira, 19 de junho de 2009

É fogo!


Uma vez viajei com um amigo e em uma noite de sexta feira estávamos comendo um sanduíche quando ele viu um cachorro vira lata preto, pequeno e com o pelo todo atrapalhado. Ele então me disse:
— João, se eu fosse um cachorro eu seria igual a esse aí.
Eu que curto os canídeos não poderia deixar passar em branco.
— E eu que cachorro seria?
— João, você não seria um cachorro de raça. Você é muito largado para ser um cão de raça. Você seria um cachorro maior que eu, mas seria um vira lata com certeza!
Eu cai na gargalhada e considerei o comentário um elogio. Eu sou um vira lata, não tem jeito. Acredito que os vira latas são aqueles marginais. Sempre à margem da sociedade, enquanto o cidadão comum estuda para concurso público e garante o seu futuro seguro um vira lata se perde em seus pensamentos e sonhos. Sempre tem mais perguntas que respostas, mais dúvidas que certezas. Não é uma questão de escolha ou moral, nós somos assim e pronto. O fato é que nós nunca somos tão atraentes como os de raça, sempre estamos jogados por aí e a melhor parte é que não ligamos. Essa é nossa natureza, aqueles ao nosso redor podem aceitar ou não. Para nós não faz diferença, somos o que somos. Pagamos o preço por nossa natureza selvagem, a solidão é um preço justo. Nos dá o que pensar e quando encontramos outro vira lata a sensação é maravilhosa, pois sabemos que não estamos sozinhos, temos com quem conversar. Com freqüência a conversa vem acompanhada de uma cerveja gelada e um porre daqueles... não adianta, nós vira latas somos animais sociais e valorizamos muito a compania de outros canídeos. Temos uma história evolutiva que não nos deixa esquecer, somos animais de bando. Precisamos de pessoas como agente. É uma pena que tanta gente não entenda a nossa natureza, nossa necessidade de estar na estrada, conhecer gente, lugares onde possamos nos sentir a vontade, sentir o cheiro do ar limpo e vento em nossos pelos, a água que nos limpa, dá força e mata a nossa sede. Nós nos identificamos com outros animais por que eles são livres, sem rótulos, são o que são, estão sempre no lugar certo. Não há nem uma sociedade que os diga o que devem ser ou que os deixe deslocados. Sem hipocrisia, sem formulas de felicidade ou verdades absolutas eles vivem essa vida que é o que eles tem, é o que conhecem. Nada é mais belo que isso, viver como se essa vida fosse a única, sem Deus, sem paraíso, sem certezas. Não precisamos de Deus para nos salvar, não queremos ser salvos. Ser um vira lata é fogo...

sábado, 9 de maio de 2009

Vão se fuder!


Sabe, há muito tenho tido problemas para escrever... Muito pouco ou nada saem dessa minha cabeça quando sento minha bunda na frente de um computador. E há muito tempo venho acumulando idéias de textos que no fim, acredito que não conseguirei escrevê-los todos. Mas esse eu vou começar hoje. Digo que vou começar hoje porque a minha idéia é dividi-lo em três partes.

Eu já tinha pensado no título, que era: “Impunidade: a sepultura do Brasil”, mas esse novo título me pareceu muito mais apropriado para o que eu sinto, me pareceu muito mais sincero e direto. Se você se identificar com qualquer um dos grupos que eu escrever aqui, vai se fuder! Você não merece minha educação, muito menos meus eufemismos, você merece uma morte muito dolorida!

Então vamos lá, de volta aos teclados e com fúria na mente e nos dedos escrevo a vocês mais uma vez. Uma das maiores discussões de bar é a seguinte: Qual é o problema do Brasil? O que fazer para resolvê-lo? Muito provavelmente eu não tenho a resposta para a segunda pergunta, mas para a primeira eu tenho. O grande problema é a impunidade.

Tá, é bem óbvio e não caracteriza uma grande descoberta da minha parte, mas aqui vou explorar onde a impunidade está destruindo o Brasil. Eu tinha uma ordem pré-estabelecida para esses grupos de pessoas, mas vou mudar também.

Moro em Brasília, e aqui (para quem não mora aqui e por algum acaso vier a ler este texto) só se pensa em concurso público, praticamente toda a população daqui só fala nisso. E acham um absurdo quando alguém não se interessa em fazer as concorridas provas para se tornar um servidor público. E por que? Alguns vão dizer que é porque Brasília não tem industria, o que não chega a ser uma mentira, mas também não constitui uma resposta, porque ainda existem empresas privadas.

Eu digo porque as pessoas se limitaram a concursos públicos: Porque todo mundo quer mamar nas tetas do governo! E pior, querem mamar nas tetas da nossa mãe gentil, Pátria amada, Brasil sem correr o risco de perderem o emprego. E é isso que caracteriza nossa podre sociedade, só se pensa em viver impune. Porque senhores, quem já viu alguém ser exonerado do serviço público? Praticamente ninguém é exonerado.

E a situação vai piorando. Todos querem passar nos concursos para tribunais ou, melhor ainda, para o senado, porque são os melhores salários e a melhor mamata! Sim, é uma mamata, se tem servidor que rale pra valer nesses órgãos é uma minoria considerada louca. Alguns podem até vir me dizer que ralam, mas não como um servidor público que recebe 10 mil reais por mês deveria ralar!

Mas a vida de um concurseiro é uma escada, quando você começa a estudar para concurso só passa nos concursos meia-boca do executivo (pagam mal, mas você pode continuar estudando, porque no trabalho você pode ficar sem fazer nada), depois de um tempo você passa num melhor, depois noutro melhor e depois noutro melhor ainda e assim vai. Esquecem que dinheiro público foi gasto para contratá-los (em todo o processo de concurso público uma nota é gasta) e treiná-los. Depois de gastarem essa verba pública vão para o próximo órgão público fazer a mesma palhaçada.

Mentira minha? Em um ano, cerca de 30% dos funcionários que passaram num concurso do executivo, que nem paga tão mal assim (R$ 3.500,00), saíram... 30% em um ano! E esse é só um exemplo!

E assim fica o poder público brasileiro, nas mãos de pessoas descompromissadas com seu emprego, querendo só ganhar mais. Se tiver um de vocês, escaladores de concursos, lendo aqui e se achando no direito de querer ganhar mais, porque é a sua vida, bem, mais uma vez, vai tomar no meio do seu cu! Faça isso de forma que meu dinheiro suado (sim, tem gente que trabalha nesse país, e melhor, nessa cidade!) não seja jogado fora!

E esses mesmos que desperdiçam uma quantidade absurda de dinheiro público ficam revoltados quando vêem uns políticos comprando passagens para seus familiares viajarem. Ah sim, e quando aquele filho duma puta que deu passagem para o filhinho dele ir para Paris (tirando uma folga dos estudos para concurso público) diz que não existem regras claras quanto às passagens, nós todos ficamos revoltados, porque é óbvio para nós que é errado gastar dinheiro público... Exceto quando somos nós que estamos gastando de forma errada, não é?

Então é assim que é a juventude brasileira, e mais especificamente a brasiliense, que não se garante, tem medo de encarar um emprego de verdade, teme ter que trabalhar de verdade. "Não quero trabalhar minha vida inteira para ser demitido quando estiver velho". Melhor é falir o governo!

Quanto aos políticos, eu falo deles na próxima parte! Porque agora estou enojado demais para continuar!

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Percepções




É interessante como somos enganados por nossa percepção. Na verdade, isso é tudo o que temos para nos orientar nesse mundo e acredito que, em certos momentos, seu valor deva ser questionado. Não me refiro ao sentido prático, mas às interpretações que fazemos dela. Ela nos engana e tenho a ligeira impressão de que evoluímos para sermos enganados, acreditando em nossas percepções, criando e vivendo ilusões. Somos muito bons nisso. Por isso me incomoda o fato de algumas pessoas terem tanta certeza de algumas coisas, certezas são perigosas e é importante questionar. Como podemos ter certeza de algo baseado em nossas percepções? Não sei se estou sendo claro... preciso usar um exemplo. A música, com toda a diversidade de estilos: música clássica, chorinho, samba, baião, blues, rock. É possível, também, observar uma grande diversidade de pessoas que apreciam determinados estilos e tem aversão a outros.

A música toca as pessoas de forma diferente, aflora sentimentos deferentes em cada ouvinte. Talvez por isso seja tão interessante ver pessoas com gostos musicais diferentes conversando sobre música, não há consenso. A percepção delas em relação à música é diferente. Então o que seria real? Qual seria a percepção correta? A de um fã de blues que sente um forte sentimento de identidade com os arranjos e letras profundas de um senhor chamado Robert Johnson, capaz de encontrar consolo na vida sofrida de outro homem. Ou seria a de Um fã de samba que encontra na música o sentimento de identidade cultural, suas raízes e história de seu povo. Qual dos dois estaria correto, supondo que um seja incapaz de compreender com profundidade o significado da música para o outro? Poderia dizer que seriam duas realidades diferentes? Ou duas ilusões diferentes? Prefiro acreditar que seriam duas ilusões diferentes, pois quando dizemos que algo é real não há abertura para reflexões, as pessoas se agarram à sua realidade, certezas e verdades.

E o amor. Esse sentimento entre homem e mulher. Quem não teve um grande amor? É ao mesmo tempo uma dádiva e uma maldição, não conseguimos ver as coisas com a mesma clareza e razão habitual. Muitos se perdem em um beijo, um cheiro, um sorriso, no sexo, em suas ilusões... essas não são palavras de um cético tentando racionalizar o amor. Os sentimentos eles são verdadeiros sim e isso é inquestionável, mas damos a eles proporções absurdas ao ponto de ficarmos perdidos em nossas verdades. Somos enganados por nossos sentidos, na verdade pelas impressões que nosso cérebro faz deles. Muitos acreditam só naquilo que podem perceber, isso é uma pena. Com toda a nossa complexidade é preciso refletir sobre o que sentimos. Isso pode nos tornar mais pacientes, tolerantes, menos agressivos e talvez traga um pouco de paz, talvez...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O sangue de Cristo tem poder


Aos religiosos que chegarem a ler isso, minhas sinceras desculpas, não é meu objetivo ofender a Cristo ou a Deus. A crítica é à humanidade.

Deus resolveu criar o mundo e seus habitantes e num lapso de arrogância, criou o homem e a mulher. E desde sua criação, o homem vem destruindo tudo que toca, como um Midas às avessas. Após destruir tudo que se encontrava no mundo profano resolveu destruir tudo que encontrava no mundo divino. E essa é a história de como a humanidade se destruiu e de como Deus se redimiu de sua arrogância.

Após o perfeito domínio da clonagem, cientistas conseguiram clonar resíduos encontrados do sangue de Cristo. A princípio o poderoso líquido só era acessível para uma pequena parcela abastada da sociedade, que gastava fortunas para curar suas mazelas, todo tipo de doença era curada com uma pequena porção do sangue divino. Após muitos anos o processo de clonagem se tornou mais barato e após fervorosas reivindicações do resto da sociedade o sangue passou a ser utilizado por todos para a cura de doenças. O efeito rejuvenescedor do sangue elevou a expectativas de vida à números somente vistos no antigo testamento. Mas os efeitos benéficos do sangue estavam para acabar.

O próximo passo dos filhos de Deus foi tentar utilizar o poderoso remédio para resolver problemas diplomáticos. Os governantes tomavam do sangue para resolver suas diferenças em reuniões elevadas a um patamar divino. Muita coisa boa era decidida nessas reuniões, mas pouco se concretizava porque o efeito divino logo se perdia na perdição humana e os governantes voltavam às suas posições iniciais.

Até que um gênio teve a idéia de que a sociedade deveria pagar para que os governantes deveriam ter o sangue ininterruptamente. Os governantes se tornaram divindades. E foi lindo, as guerras acabaram, acordos econômicos surgiram para reerguer países pobres explorados, dívidas externas foram perdoadas... E foi aqui que o sangue começou a se tornar em maldição.

Com problemas políticos e diplomáticos resolvidos a sociedade só crescia, mas a população continuava corrupta, e assim passou-se a ser traficado ilegalmente do sangue. A pessoa comum queria atingir a divindade e passou a injetar o sangue ilegal. Grupos religiosos passaram a utilizar o sangue traficado em suas cerimônias, distribuindo entre os fiéis. A mente profana da humanidade atingindo estados divinos começou a se tornar o maior vício jamais registrado. Em poucos anos o mundo inteiro estava totalmente entregue ao vício, e todos os cantos se encontrava pessoas ajoelhadas, orando, com seus braços amarrados e com seringa na mão.

Aos poucos a única coisa que se tornava indispensável para todos era a droga final, a humanidade esqueceu de trabalhar, de se socializar, de se reproduzir... O homo sapiens não possuía a maturidade espiritual de lidar com a divindade. Lentamente a humanidade foi sumindo, sem que percebesse seu fim. o mundo foi se reerguendo sem a presença do homem até que o ser humano sumiu.

E foi assim que os filhos de Deus sumiram e que Deus se redimiu de seu único erro.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Laura

Era só mais uma noite, ela estava sentada terminando mais uma dose de Whisky ao som da mesma música eletrônica de sempre. Ouvindo as mesmas cantadas e elogios daqueles homens com cabelos curtos, barba feita, perfumes caros. Eram belos, mas quase dava para sentir o cheiro do anabolizante saindo pelos poros da pele. Ela estava cansada do jogo, agora era diferente. Com a idade as mulheres de seu meio enlouqueciam, faziam cirurgia plástica, colocavam silicone, mas ela não; continuava sempre jovem e linda. Envelhecer não era mais um problema para ela, seu mundo agora tinha cores e cheiros diferentes. Passados dez anos desde que encontrara aquele homem cujos olhos pareciam arder em brasas na escuridão da boate e por quem ela tinha sentido uma atração sobrenatural, suas percepções sensoriais havia mudado e agora sua visão de mundo também estava mudando.

Após dez anos freqüentando casas noturnas, saindo com homens belos e com grana, fazendo sexo em diversos lugares, situações e posições que a criatividade humana possa imaginar; faltava alguma coisa... talvez um gesto carinhoso, um olhar de cumplicidade, mas no fundo ela sabia; em seu mundo faltava profundidade na alma das pessoas. Seus cérebros só conseguiam captar imagens que eram projetadas em suas retinas e suas avaliações eram feitas com base em padrões ditados por um mundo superficial que vende a imagem de uma juventude narcisista. No começo ela achava que o fato de não estar envelhecendo era uma dádiva, mas agora sabia que era uma maldição. Ela começava a ter reflexões que nunca tinham lhe ocorrido antes, tinha o corpo de uma menina de 21 anos e a mente de uma mulher de 31. Nunca poderia casar-se, ter filhos e envelhecer; estava presa para sempre a uma existência superficial. Sentada no bar, quando esse ultimo pensamento passou por sua cabeça abriu-se um discreto sorriso no canto de sua boca, matou em um longo gole a sua oitava dose de Whisky e disse em voz baixa “ao menos o safado tinha senso de humor”. Largou o copo no balcão e foi à caça, uma garota precisa se alimentar.